Archive for novembro, 2008
Sim, é só isso. Ou tudo isso.

Capa do livro MNM
A postagem sobre minimalismo gerou uma observação muito interessante da Viviany, do blog Dona House.
Agradeço o comentário, principalmente por dar oportunidade de ampliar a postagem.
O minimalismo, embora cause a sensação de frieza na maioria, é também a representação de um estilo de vida.
Tanto o autor do projeto quanto o usuário da moradia, não têm essa sensação de frieza, mas sim uma sensação de preenchimento completo.
Definitivamente não é um estilo que tem um apelo comercial ou feito para vender revista, justamente pela sua autenticidade e simplicidade.
Porém, toda essa simplicidade é somente aparente, visto que a complexidade de um ambiente minimalista autêntico está justamente em não ultrapassar o essencial.
Nesse caso, entenda como essencial não os objetos e móveis fundamentais para um dia-a-dia, mas para a expressão total do conceito minimalista.
Se você está se perguntando para que serve isso, a resposta é simples: mesmo quando você não se identifica com um determinado estilo, é muito importante conhecê-lo.
Na decoração esse é um ponto importante. Pode parecer que não, mas o minimalismo contribui em muito para o aprendizado de não exceder, de saber dosar e equilibrar.
Uma outra contribuição do minimalismo é aprender sobre sofisticação.
Gostando ou não, fica muito evidente que um ambiente minimalista, apesar de não ter muitos elementos, é sofisticado. E aí está a sua maior dificuldade de realização.
O conceito “menos é mais” é muito atual, principalmente quando estamos sendo invadidos por um marketing que não nos pergunta “você precisa disto?” mas nos impõe “você precisa disto!”
Infelizmente, o minimalismo está restrito à elite e nunca vai chegar às classes populares.
Nesse caso, não é uma questão de dinheiro.
É somente cultura.
A foto que ilustra esta postagem é a capa do livro MNM, Minimalist Interiors, publicado por Watson-Guptill Publications, 2000.
Só isso?

Casa minimalista
Um projeto ou uma decoração minimalista não é coisa fácil de se ver.
Nem de fazer.
Talvez por isso seja difícil vê-las.
Apesar das revistas, dos blogs e dos entendidos que introduziram o termo “clean” no mundo da decoração como sinônimo do minimalismo, uma coisa não tem nada a ver com a outra.
Ele é um conceito autêntico traduzido pela frase “menos é mais”.
Sua principal característica é o uso de elementos indispensáveis formando um conjunto balanceado e coerente.
E por que é tão difícil de fazer?
Justamente porque é necessário um conhecimento que vai muito além do simples bom gosto que todo mundo acha que tem.
Colocar um monte de almofadas em um sofá é coisa que qualquer um pode fazer.
Assim como encher uma bancada de badulaques de todos os tipos, seguindo algum princípio de união como a cor ou o formato, por exemplo.
Agora, fazer um ambiente utilizando somente o essencial e interligando os elementos deixando-o perfeito, não é coisa para qualquer um.

Casa minimalista
Então, nesse meio tempo surgiu o famoso “clean”.
Pode reparar, nas revistas eles usam clean para descrever praticamente tudo o que tem linhas retas e cores claras, neutras ou monocromáticas. Até aí dá para engolir.
O problema é quando, com ares de especialistas, confundem o minimalismo com esse “clean”.
Não querendo ser purista, o minimalismo tem muita personalidade, enquanto o “clean” não vai muito além de uma cozinha modulada, coisa sem sal e sem açúcar que consumimos nestes tempos de controle do colesterol e da triglicérides da decoração.
As fotos que ilustram esta postagem são da Tetsuka House, Tokyo, 2005, um projeto do arquiteto minimalista John Pawson.

Casa minimalista

Casa minimalista
Ajuda ou piora?

Pare com isso.
Quando você compra um artesanato em uma loja de presentes e decoração, o que você sente?
Que está adquirindo um produto feito pelo artesão?
Sente-se como que transportado ao lugar de origem daquele artesanato?
Afinal, você sabe o que é artesanato?
Muitas perguntas e poucas respostas?
Então leia esta postagem.
Por definição, artesanato é uma produção com temática regional e popular feita por uma pessoa, o artesão. Alguns artesãos são auxiliados por familiares.
A produção é baixa e os produtos têm a marca e característica do artesão.
Pois bem, artesanato é cultura e das mais valiosas, porque é cultura popular.
Cada região tem o seu artesanato próprio e, se bem consumido, faz comunidades inteiras serem auto sustentáveis, pois o artesanato atrai turistas, o turista traz o dinheiro para o comércio local e todos vivem felizes.
Mas, infelizmente existe o mas, os espertos industrializaram o artesanato.
A maioria das peças que você vê nessas lojas não são mais regionais, são pirataria.
São produzidas em série, em verdadeiras indústrias que muitas vezes estão a milhares de kilometros da região de origem daquela peça, pagam péssimos salários e não oferecem condições de trabalho adequadas.
Se você se interessar pelo assunto e quiser ver a situação de pirataria em loco, pode visitar cidades como Porto Ferreira e Pedreira, ambas no interior de São Paulo.
O verdadeiro artesão, sem condições de competir, depende de ações e de algumas ONGs que realizam projetos de manutenção dessa importante cultura popular.
Mas se você continuar comprando artesanato fajuto em lojas, essas ações serão iguais a você retirar uma única garrafa pet de dentro do rio Tietê, enquanto milhares são jogadas.
Se você realmente tiver que comprar um artesanato em uma dessas lojas, pergunte pelo autor, de onde veio, o que significa.
Se a resposta for uma bela engasgada, não compre.
Você está sendo enganado.
Você já atormentou o seu arquiteto hoje?

Voodoo
Eu me sinto à vontade para fazer esta postagem, pois muitas vezes também meti o pau neles. Vamos aos fatos:
Como somos um país pobre, não aprendemos a pagar por coisas que não podemos pegar na mão.
Cultura, inclusive. Mas a culpa não é sua, fique calmo.
Vivemos em um país onde uma pizza custa o mesmo que um livro e todo mundo come a pizza, umas 20 por ano.
Também não compramos serviços pelo preço justo e pagamos muito mais do que vale por produtos que não valem nada.
E ainda assim não conseguimos ser coerentes nem quando pagamos pelos produtos.
Vamos aos exemplos:
- Quanto você está disposto a pagar pelo metro de um belo mármore branquinho para a pia do seu banheiro, que vai durar a vida toda se você não bater com uma marreta sobre ele? R$ 375,00 é caro? Vai ficar pensando umas trezentas vezes, não vai?
- E aquele monte de borracha que chamamos de tênis ou umas tiras com um solado que chamamos de sandália, cuspido aos montes por máquinas, que vai durar meses, com nome esquisito e formato mais ainda? Vale os mesmos R$ 375,00? Pois é, você ficou a cara do Michael Jordan ou da Gisele Bündchen…
Por isso não damos a mínima importância a determinadas profissões.
A arquitetura é uma delas. Não conseguimos entender como alguns palpites podem ser importantes e custar alguma coisa.
E fazemos do arquiteto um boneco de vudu vivo, onde vamos espetando alfinetinhos só para atormentá-lo.
- Ele escolheu branco? Ele não sabe de nada, pois o moço da loja de tinta disse que todo mundo está usando um tom de laranja.
- Como? Pedra, meu filho? Minha amiga colocou um porcelanato maravilhoso!
- Não, não, não… grama dá grilo, grilo canta muito durante a noite e não vou conseguir dormir.
Quero pedra.
E assim os arquitetos vão levando a vida, tentando vender projetos e auxiliar na construção de uma moradia melhor.
E um dia ainda vamos ouvir (ou já estamos ouvindo?) frases do tipo “ainda bem que eu não estudei…”
Alerta: não tente fazer isso em casa!

Exercício de imaginação
Ao terminar esta postagem, feche os olhos e experimente.
O resultado pode ser surpreendente.
Se você é uma pessoa observadora, deve ter notado que os conceitos de decoração estão se tornando um tanto quanto uniformes, principalmente nas residências.
Uma forma de fazer a cabeça funcionar é provocando questionamentos através de posições que algumas vezes parecem exageradas, idealistas demais ou até mesmo agressivas.
Somos assim, precisamos de estímulos visuais, físicos e psicológicos.
Agora leia, siga a instrução do início da postagem e empenhe-se em mentalizar:
- Imagine a sua sala com paredes roxas, um sofá amarelo, um imenso tapete vermelho sobre um piso preto. As janelas sem cortinas, abertas e deixando a luz natural entrar.
- Substitua mentalmente os objetos de decoração por objetos mais inusitados, como uma imensa boca vermelha típica de sex shop. Imagine tubos que saem do chão servindo como vasos.
- Na parede roxa, mentalize uma tela gigantesca, abstrata.
Pronto! Se você conseguiu formar uma imagem visual em sua cabeça é uma coisa bacana, pois você ainda consegue contrapor conceitos.
Você deve ter visto uma imagem exagerada, pode ter gostado ou não, mas isso não faz diferença porque o conjunto foi proposto aleatoriamente com o único objetivo de fazer uma imagem conhecida se transformar em outra desconhecida.
E para que serve isso?
Serve unicamente como estímulo para você pensar e questionar o que já vem pronto para você.
É oportuno lembrar que esse método foi inventado, não tem base científica ou religiosa, não é catalogado e não faz parte de nenhuma corrente ou tese de doutorado.
Surgiu de um pensamento. Resolvi compartilhar.
Simples assim.
Mais ou menos um pouco disso.

À noite, todas as ruas são pardas.
A cidade nos influencia ou nós influenciamos a cidade?
Nós influenciamos a cidade, porque ela é uma ampliação do nosso círculo de convívio social.
Conviver é bom, faz bem e nos ensina muito.
Vivemos em células e por algum motivo, que somente sociológos poderiam explicar melhor, estamos separando essas células e impedindo a formação de um sistema celular.
A idéia básica de uma casa é que todos os seus cômodos convivam entre si.
Estando essa casa em um bairro, prédio ou condomínio permanece a idéia de convivência.
E os bairros estando em uma cidade é normal que convivam também.
O problema é que não basta a convivência desses elementos urbanos e materiais. Não temos cidades funcionando como um sistema celular se não temos pessoas interagindo entre si.
O funcionamento de uma residência atual mostra um isolamento total dos seus moradores.
A cozinha deixou de ser o lugar de cozinhar (compra-se pronto) e a sala não é mais o lugar de estar.
Conseqüentemente uma casa está deixando de ser uma casa.
Uma casa passou a ser um agrupamento de quartos, cada qual com o seu mundo particular.
Chegará o dia no qual cada um terá a sua geladeira no quarto para não ter o trabalho de ir até a cozinha. E nós, consumidores do conforto, vamos achar isso muito chic.
Se um publicitário fosse fazer um anúncio honesto (coisa impossível para um publicitário) de um apartamento, mostraria somente os quartos e colocaria como título “Tudo o que uma família precisa em um apartamento”.
É dificil entender porque ainda vendem a varanda, a sala integrada com a cozinha, um cubículo com o suntuoso nome de Hall de Entrada, uma churrasqueira no térreo (que nunca será usada) chamada de Espaço Gourmet e mais um monte de outras coisas alojadas confortavelmente em 80m².
Um arquiteto esperto faria um apartamento com quartos maiores, com uma cozinha, um banheiro e uma sala dentro de cada um dos quartos.
Estamos transpondo tudo isso para a cidade.
E, de repente, ficamos de mau humor quando um desconhecido nos dá bom dia.
Acredite, o desconhecido só estava tentando conviver, participar e dividir.
Ele não ia assaltá-lo.