Archive for the ‘Opinião’ Category
Ajuda ou piora?

Pare com isso.
Quando você compra um artesanato em uma loja de presentes e decoração, o que você sente?
Que está adquirindo um produto feito pelo artesão?
Sente-se como que transportado ao lugar de origem daquele artesanato?
Afinal, você sabe o que é artesanato?
Muitas perguntas e poucas respostas?
Então leia esta postagem.
Por definição, artesanato é uma produção com temática regional e popular feita por uma pessoa, o artesão. Alguns artesãos são auxiliados por familiares.
A produção é baixa e os produtos têm a marca e característica do artesão.
Pois bem, artesanato é cultura e das mais valiosas, porque é cultura popular.
Cada região tem o seu artesanato próprio e, se bem consumido, faz comunidades inteiras serem auto sustentáveis, pois o artesanato atrai turistas, o turista traz o dinheiro para o comércio local e todos vivem felizes.
Mas, infelizmente existe o mas, os espertos industrializaram o artesanato.
A maioria das peças que você vê nessas lojas não são mais regionais, são pirataria.
São produzidas em série, em verdadeiras indústrias que muitas vezes estão a milhares de kilometros da região de origem daquela peça, pagam péssimos salários e não oferecem condições de trabalho adequadas.
Se você se interessar pelo assunto e quiser ver a situação de pirataria em loco, pode visitar cidades como Porto Ferreira e Pedreira, ambas no interior de São Paulo.
O verdadeiro artesão, sem condições de competir, depende de ações e de algumas ONGs que realizam projetos de manutenção dessa importante cultura popular.
Mas se você continuar comprando artesanato fajuto em lojas, essas ações serão iguais a você retirar uma única garrafa pet de dentro do rio Tietê, enquanto milhares são jogadas.
Se você realmente tiver que comprar um artesanato em uma dessas lojas, pergunte pelo autor, de onde veio, o que significa.
Se a resposta for uma bela engasgada, não compre.
Você está sendo enganado.
Você já atormentou o seu arquiteto hoje?

Voodoo
Eu me sinto à vontade para fazer esta postagem, pois muitas vezes também meti o pau neles. Vamos aos fatos:
Como somos um país pobre, não aprendemos a pagar por coisas que não podemos pegar na mão.
Cultura, inclusive. Mas a culpa não é sua, fique calmo.
Vivemos em um país onde uma pizza custa o mesmo que um livro e todo mundo come a pizza, umas 20 por ano.
Também não compramos serviços pelo preço justo e pagamos muito mais do que vale por produtos que não valem nada.
E ainda assim não conseguimos ser coerentes nem quando pagamos pelos produtos.
Vamos aos exemplos:
- Quanto você está disposto a pagar pelo metro de um belo mármore branquinho para a pia do seu banheiro, que vai durar a vida toda se você não bater com uma marreta sobre ele? R$ 375,00 é caro? Vai ficar pensando umas trezentas vezes, não vai?
- E aquele monte de borracha que chamamos de tênis ou umas tiras com um solado que chamamos de sandália, cuspido aos montes por máquinas, que vai durar meses, com nome esquisito e formato mais ainda? Vale os mesmos R$ 375,00? Pois é, você ficou a cara do Michael Jordan ou da Gisele Bündchen…
Por isso não damos a mínima importância a determinadas profissões.
A arquitetura é uma delas. Não conseguimos entender como alguns palpites podem ser importantes e custar alguma coisa.
E fazemos do arquiteto um boneco de vudu vivo, onde vamos espetando alfinetinhos só para atormentá-lo.
- Ele escolheu branco? Ele não sabe de nada, pois o moço da loja de tinta disse que todo mundo está usando um tom de laranja.
- Como? Pedra, meu filho? Minha amiga colocou um porcelanato maravilhoso!
- Não, não, não… grama dá grilo, grilo canta muito durante a noite e não vou conseguir dormir.
Quero pedra.
E assim os arquitetos vão levando a vida, tentando vender projetos e auxiliar na construção de uma moradia melhor.
E um dia ainda vamos ouvir (ou já estamos ouvindo?) frases do tipo “ainda bem que eu não estudei…”
Mais ou menos um pouco disso.

À noite, todas as ruas são pardas.
A cidade nos influencia ou nós influenciamos a cidade?
Nós influenciamos a cidade, porque ela é uma ampliação do nosso círculo de convívio social.
Conviver é bom, faz bem e nos ensina muito.
Vivemos em células e por algum motivo, que somente sociológos poderiam explicar melhor, estamos separando essas células e impedindo a formação de um sistema celular.
A idéia básica de uma casa é que todos os seus cômodos convivam entre si.
Estando essa casa em um bairro, prédio ou condomínio permanece a idéia de convivência.
E os bairros estando em uma cidade é normal que convivam também.
O problema é que não basta a convivência desses elementos urbanos e materiais. Não temos cidades funcionando como um sistema celular se não temos pessoas interagindo entre si.
O funcionamento de uma residência atual mostra um isolamento total dos seus moradores.
A cozinha deixou de ser o lugar de cozinhar (compra-se pronto) e a sala não é mais o lugar de estar.
Conseqüentemente uma casa está deixando de ser uma casa.
Uma casa passou a ser um agrupamento de quartos, cada qual com o seu mundo particular.
Chegará o dia no qual cada um terá a sua geladeira no quarto para não ter o trabalho de ir até a cozinha. E nós, consumidores do conforto, vamos achar isso muito chic.
Se um publicitário fosse fazer um anúncio honesto (coisa impossível para um publicitário) de um apartamento, mostraria somente os quartos e colocaria como título “Tudo o que uma família precisa em um apartamento”.
É dificil entender porque ainda vendem a varanda, a sala integrada com a cozinha, um cubículo com o suntuoso nome de Hall de Entrada, uma churrasqueira no térreo (que nunca será usada) chamada de Espaço Gourmet e mais um monte de outras coisas alojadas confortavelmente em 80m².
Um arquiteto esperto faria um apartamento com quartos maiores, com uma cozinha, um banheiro e uma sala dentro de cada um dos quartos.
Estamos transpondo tudo isso para a cidade.
E, de repente, ficamos de mau humor quando um desconhecido nos dá bom dia.
Acredite, o desconhecido só estava tentando conviver, participar e dividir.
Ele não ia assaltá-lo.
Aquela garrafa pet que você reciclou não vai salvar o planeta.

Tem jeito?
Um belo dia você resolve mudar de atitude para ajudar o planeta, reciclando.
Uma garrafa pet, uma tesoura, uma pistola de cola quente, alguns picotes e cortes na garrafa e pronto!
Ela se transforma em uma luminária. Muitas vezes de gosto duvidoso e, passada a onda, vai parar no lixo reciclável.
Sua luminária não serviu para muita coisa, nem para decorar e muito menos para salvar o mundo.
Para cada garrafa pet que você tenta tirar de circulação, outras milhões são colocadas no mercado.
Não vai ser esse o caminho, vai servir apenas para enganar a sua consciência.
Mas aí você diz “mas eu reciclo, separo o meu lixo”. Enquanto postura, é ótimo.
Mas reciclar as suas garrafas pet também não vai resolver, infelizmente.
Quando você recicla as suas garrafas, você está fornecendo matéria-prima barata para a indústria do plástico. Em outras palavras, trabalhando de graça.
Radical? Não, nem um pouco. Antes de discordar, pense um pouco.
Quanto você recebe para fazer esse serviço?
E para onde vai esse plástico que você reciclou?
A indústria paga quanto por esse plástico?
Ela recompra esse plástico por um valor muito baixo e reprocessa-o. E continua comprando matéria-prima para fabricar plástico virgem, pois o consumo é sempre crescente.
O plástico reprocessado ela vende de novo para você, transformado em outros produtos.
Funciona assim: você paga na primeira vez e devolve para eles sem receber nada, eles revendem para você e você devolve de graça novamente para eles, eles tornam a revender e esse ciclo vai se repetindo até eles nunca mais conseguirem fazer nada com o plástico.
Nessa hora eles descartam o plástico na natureza.
E qual a solução?
Uma delas é parar de consumir plástico, parar de aumentar a lucratividade desses sujeitos e diminuir esse ciclo.
Evite tigelinhas e potinhos de plástico, coisinhas fofinhas e todo o resto.
Pratique o consumo responsável. Comece a ser seletivo na compra, quando não tiver opção, tente não comprar.
Vai fazer bem para o seu bolso e para o planeta.
Compre somente quando for inevitável.
Até porque não existe macarrão, iogurte ou refrigerante sem ser no plástico.
É impossível? Não é.
Mas isso fica para uma outra postagem.
Você usaria?

O sofá detestado.
Um dos desafios da decoração contemporânea é fazer a pessoa aplicá-la em sua própria casa, vencendo a barreira do convencional.
A proposta contemporânea se resume em utilizar materiais e temas que adequam o ambiente ao estilo de vida de hoje.
Atualmente, nada mais lógico que o reaproveitamento de materiais, a praticidade e a individualização estejam presentes na decoração.
A maioria acha genial, mas hesita na hora de usar em sua própria casa.
Para ilustrar a questão, compensa acompanhar o dilema da Isabel com o sofá que ela detesta e a sua solução aparentemente provisória. Os links estão no final da postagem.
Eu estou acompanhando com o maior interesse e quero ver o final dessa história (se a Isabel optar por trocar o sofá).
Na tv, a Casas Bahia ficam chamando a Isabel para comprar um sofá novo.
Na internet, a Talma mandou ver uma sugestão totalmente contemporânea.
Eu não arrisco fazer uma aposta. E você?
Conheça a história toda nestes links:
Isabel e o sofá
O sofá repaginado
A sugestão da Talma
Quer apostar que eu sei a cor do seu carro?

Todos os carros são prata.
Se o seu carro é novo, digo sem medo de errar: é prata.
Há algum tempo as ruas estão sendo invadidas por carros na cor prata. É impossível não notar o fenômeno.
Comecei a formular uma teoria com uma lógica interessante.
O brasileiro escolhe carros na cor prata porque a natureza aqui é muito farta em cores.
Temos praias, frutas em cores cítricas e berrantes, orquídeas, sol o ano todo, enfim somos privilegiados.
Não precisamos de cores nos nossos carros, ao contrário dos europeus, que têm uma paisagem cinzenta na maior parte do tempo, prédios antigos cinzentos, um inverno longo, a neve que só é bonita para ver e não para conviver.
Por isso eles compram carros coloridos, para levar um pouco de cor para as ruas. Até carro na cor framboesa você vê.
Amarelo então…
É assim que se começa um conceito sem fundamento.
Alguém escreve alguma coisa, outro lê, passa adiante, cai na mão de algum formador de opinião que tem um canal em um veículo com uma penetração forte e em algum dia, que ele está sem assunto melhor, coloca uma teoria dessas com ares de grande descoberta.
A razão dos brasileiros comprarem carros prata, infelizmente, é bem mais prosaica: são mais fáceis de revender.
Seria muito mais confortante saber que o brasileiro coloca o seu gosto acima de qualquer outro motivo na hora da escolha.
Não nos ensinaram assim.
Triste.
Colocando uma cadeira do Philippe Starck na sala da Casas Bahia.

Cadeira Starck e sofá Bahia
1- “A atração por móveis de verniz sobreviveu intacta às décadas. Bote brilho num armário e ele venderá como água. Ao pesquisar as razões disso, cheguei a uma conclusão interessante: além de “embelezar”, essas pessoas atribuem ao verniz um efeito de limpeza, algo que prezam acima de tudo. Também amam portas espelhadas. Passamos a vender muito mais desde que tomamos a decisão de trocar enfeites por espelhos nos armários. Eles fazem tanto sucesso porque conferem amplitude às casas populares, nas quais os cômodos são cada vez mais espremidos. Espelhos e móveis envernizados também dão certa sensação de status, tanto quanto a cozinha planejada. Ela lembra a da classe A. O que muda é o material.”
2- “De um certo ponto de vista, design é totalmente inútil. Trabalhos úteis são o de um astrônomo, biólogo ou aqueles que fazem diferença na vida de muita gente. Design por design, não é nada. Tentei dar a meus produtos um senso de energia. Mas, mesmo quando dava o melhor de mim, senti que era pouco. Criei um monte de coisas sem verdadeiramente me interessar. Talvez todos esses anos tenham sido necessários para que me desse conta de que no fundo não precisamos de nada. Possuímos demais. Fui um produtor de materialidade. Daqui para frente, quero ser um fabricante de conceitos. Será uma nova forma de expressão, nova arma, mais rápida, mais violenta que o design.
Passei 25 anos aplicando um conceito na época revolucionário, o do design democrático. Isso quer dizer: dar as melhores formas ao maior número de pessoas, aumentando a qualidade e baixando preços. Mas, se há 25 anos era legal falar da qualidade de uma cadeira, hoje há outras urgências. Vou usar meu savoir-faire para ser mais subversivo, ligado à política e desenvolver conceitos como o da ecologia democrática.”
3- Putz!!!
1A- O dito número 1 é de autoria de Samuel Klein, o dono das Casas Bahia, em entrevista à Veja em 23/06/2008.
2A- O dito número 2 é de autoria de Philippe Starck, o designer contemporâneo mais celebrado do mundo, em entrevista ao Jornal O Estado de São Paulo em julho de 2008.
3A- Determinadas coisas a gente não precisa comentar, só pensar.
Links: Philippe Starck no blog Renata Batata e Samuel Klein no site das Casas Bahia
Blog Action Day – O Papai Noel odeia pobres.

Ajuda um pouco.
Esta postagem faz parte do Blog Action Day 2008, que tem como tema a pobreza.
Neste instante, Papai Noel deve estar ocupado separando Playstations, Barbies, iPhones, iPods para conseguir fazer as entregas do Natal, sem errar ou esquecer de ninguém.
Sim, sem esquecer de ninguém, pois ele nunca esquece, entrega todos os presentes pedidos.
Só não entrega para os pobres, porque ele odeia pobres.
Se não odiasse, faria o possível para que eles não existissem, dividindo por igual os presentes.
Faria um Playstation virar algumas dezenas de brinquedos e os distribuiria igualmente entre pobres e ricos.
Não incentivaria as crianças a doarem os seus brinquedos quebrados, mulambentos e usados para as crianças pobres, mas as convenceria a pedir menos e ensinaria que repartir um pouco é melhor que possuir muito. E que possuir mais que o outro é a origem da pobreza.
Papai Noel odeia pobres.
E nós amamos Papai Noel.
O meu sonho é um dia poder comprar um sofá nas Casas Bahia!

Tem no Magazine Luiza também.
Todas as grandes redes de varejo vendem sofás.
E eu espero um dia poder entrar em uma delas, escolher um sofá com um design honesto e ser beneficiado com as facilidades especiais de pagamento em 24 ou 36 vezes, onde o grande destaque é o preço da parcela.
Mas esta postagem não é sobre os juros embutidos e sim sobre a oportunidade perdida de fazer com que a maioria da população comece a consumir produtos com um design melhor.
Quando essas redes oferecem produtos horrorosos com nomes mais horrorosos ainda (tipo conjunto estofado Milano) é um desserviço ao design nacional. Produzir um produto feio custa o mesmo que produzir um produto bonito. O que é mais caro é você produzir um produto com mais qualidade, mas isso não significa beleza.
Eles devem ter lá os seus especialistas em marketing e vendas com seus argumentos empacotados dizendo que o público-alvo deles não consome um produto com um visual melhor, que vendem para a classe C e D etc e tal.
Mas será verdade? O povo que tem menos dinheiro tem mau gosto? E se tem, quem foi que ensinou a eles?
A resposta é simples: as grandes redes foram os professores do mau gosto. Eles conseguem vender móveis para sala, quarto e cozinha que são uma verdadeira afronta ao bom senso estético. O povo vai comprar sim o que eles colocarem à venda, porque eles conseguem com seus anúncios repetitivos e massificantes empurrar goela abaixo qualquer coisa, seja feio ou bonito, desde que possa ser pago no carnê.
Para fechar o raciocínio, abaixo está uma outra foto de um produto que eles também têm à venda nas mesmas lojas que vendem os sofás horrorosos.
E aí fica a pergunta: você acha possível um sofá daquele harmonizar, no mesmo ambiente, com uma tv como esta?

TV de rico
Constatação. Contestação.

Um jogou e o outro não limpou.
Você descobre que está em um país desenvolvido quando encontra lixeiras instaladas pelo poder público nas ruas.
